CMTeam
Atletas da CMTeam pedalando juntos na ponte, em Miami
Artigo Bike

Treino e prova
com potência

Por que medimos watts, o que significam FTP, NP, IF, TSS e VI, e como a equipe inteira fala a mesma língua: % do FTP.

Por San Palma, head coach26 de outubro de 20268 min de leitura

Por que medimos potência, o que cada número significa e como usar tudo em % do FTP. Você não precisa decorar fórmulas: precisa entender o que cada métrica te diz e o que fazer com ela.

Por que treinar com potência

A potência (watts) é a única métrica que mede diretamente o trabalho que você está produzindo, agora, sem atraso. A frequência cardíaca demora a subir e sofre com calor, sono, cafeína, hidratação e o estresse do dia de prova. O número de watts aparece no mesmo instante em que você pisa no pedal. Ele não mente e não tem desculpa: reflete exatamente o esforço que você está fazendo.

Para o triatleta isso é decisivo. Num IRONMAN ou num 70.3, a bike define se você vai correr bem ou caminhar até a linha de chegada. A potência permite administrar o esforço para chegar à T2 com pernas, em vez de gastar tudo no pedal e pagar a conta na corrida. A frequência cardíaca segue útil como leitura do organismo, mas quem comanda o ritmo é a potência.

O jeito CMTeam

Potência não é sobre treinar mais forte. É sobre treinar certo. Não somos a equipe que ensina a “estourar”; somos a que ensina a segurar, porque cansaço não é sinônimo de treino bem-feito. O número existe para te dar consciência, não para te empurrar ao limite todos os dias.

FTP: o seu 100%

O que é. FTP (Functional Threshold Power) é a maior potência média que você consegue sustentar por aproximadamente uma hora sem estourar. É o seu limiar funcional: a fronteira entre o que você segura por muito tempo e o que te leva rápido à fadiga.

Para que serve. É a referência de tudo. Todas as zonas da Caixa de Energia, o IF e o TSS saem dele. É o valor que você cadastra no computador da bike (Garmin, Wahoo) e no TrainingPeaks.

Como descobrir. O teste mais comum é o de 20 minutos: o melhor esforço sustentado possível por 20 minutos, menos 5%. Se a média foi 250 W, o FTP é cerca de 238 W. Existem também o teste de rampa e a avaliação em laboratório.

O idioma da equipe: % do FTP

Este é o ponto central. Watts são pessoais: o seu FTP é diferente do FTP do colega ao lado. Se eu disser “faça 280 W na subida”, esse número serve para um atleta e arrebenta outro. Mas se eu disser “faça 90% do FTP na subida”, a instrução vale para todos: cada um traduz para os próprios watts.

Quando todo mundo raciocina em porcentagem, a equipe fala uma única língua. O treinador prescreve em %, a estratégia de prova é montada em %, e cada atleta executa nos watts que aquela % representa para ele. Você para de comparar watts com watts, o que não faz sentido entre pessoas diferentes, e passa a comparar intensidade relativa, que é universal.

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    Prescrição. “A1 a 55–74% do FTP” significa a mesma coisa para o atleta novo e para o experiente.
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    Estratégia de prova. “Plano a 80–85%, subida curta a 95–100%, vento forte segura em A2” vira um plano que todos entendem e memorizam.
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    Controle do IF. Como o IF já é uma fração do FTP, ele conversa naturalmente com as metas em %. Você compara grandezas iguais, e não watts com um “0,8 e tanto”.
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    Memorização. Pensar em % cria um mapa mental do esforço que você leva para qualquer prova, em qualquer bike, em qualquer dia.
Na prática

Configure o computador da bike para exibir a potência em % do FTP (a maioria permite). Na prova, você lê “92%” na tela em vez de tentar lembrar se 265 W era muito ou pouco para aquele momento.

A Caixa de Energia CMTeam

Esta é a nossa tabela oficial de zonas. Cada zona treina um sistema diferente do corpo e é definida em % do FTP, exatamente o idioma da equipe. Os valores abaixo são para a bike (potência). A sensibilidade mostra o quanto aquela faixa pesa no corpo.

Zona% do FTPPara que serveSensibilidade
A0 · Active Recovery< 55%RecuperaçãoModerate
A1 · Endurance55–74%Construir a base aeróbicaModerate
A2 · Tempo75–89%Desafiar a resistência aeróbicaHeavy
A3 · Threshold90–104%Melhorar a tolerância ao lactatoHeavy (alto)
VO2 · VO2 Max105–120%Elevar o teto aeróbicoSevere
AN · Anaerobic> 120%Desafio máximo do sistemaSevere

Como cada zona se comporta no treino e na prova

ZonaObjetivo fisiológicoNo treinoEm prova
A0Recuperação ativaContínuoNão se compete aqui
A1Base aeróbica e economiaContínuoHoras: é o ritmo do IRONMAN
A2Sustentação metabólica8–30 min por bloco40–120 min: ritmo do 70.3
A3Limiar de lactato4–12 min por bloco20–60 min
VO2Potência aeróbica máxima2–5 min por bloco5–12 min
ANCapacidade anaeróbica10–60 sSegundos

Repare como tudo já está em % do FTP. Quando o treinador escreve “A2” na planilha, você sabe a faixa, o objetivo e quanto tempo aguenta ali. Esse é o atalho mental que queremos que você carregue.

NP: Normalized Power

O que é. Uma estimativa de quanto o seu corpo realmente “sofreu”, levando em conta as variações de esforço. Nenhum pedal é perfeitamente constante: você acelera na subida e alivia na descida. A NP pesa esses picos porque o custo fisiológico deles não é linear.

Por que importa. A potência média esconde a dureza real de um pedal cheio de oscilações. Um treino com média de 200 W cheio de curvas ou sprints pode custar como um esforço constante de 224 W. A NP captura isso; a média, não.

Na prática

Pedal constante (IRONMAN bem dosado): a NP fica perto da potência média.

Pedal picotado (percurso ondulado, vento de través, freadas para evitar o vácuo): a NP sobe bem acima da média.

É a NP, e não a média, que entra no cálculo do IF e do TSS.

IF: Intensity Factor

O que é. O quão duro foi o pedal em relação ao seu FTP: é a NP dividida pelo FTP. Se a NP foi 200 W e o FTP é 250 W, o IF é 0,80. Ou seja, você rodou a 80% do FTP.

O IF é o nosso idioma de % já embutido: um IF de 0,80 é o mesmo que “esforço a 80% do FTP”. Por isso ele conversa direto com a estratégia que montamos em porcentagem. No triathlon, o IF da bike é o número que melhor prevê como vai ser a corrida. Acertar o IF é acertar a prova inteira.

IF da bikeContexto típico no triathlon
0,72–0,78IRONMAN (140.6). Esforço sustentável por 4 a 6 horas, deixando pernas para a maratona.
0,78–0,8470.3. Bike forte, mas controlada, preservando a meia maratona.
0,84–0,90Provas mais curtas (olímpico) ou atletas avançados no 70.3.
0,90–1,00Contrarrelógio puro ou sprint. Pertinho do limiar, sem corrida longa depois.
Atenção

Atleta que sai com IF alto demais na bike do IRONMAN quase sempre paga na corrida. Disciplina no IF é o que separa um bom split de bike de uma boa prova.

TSS: Training Stress Score

O que é. Um número único que junta intensidade e duração para dizer o quanto aquele pedal te desgastou no total. A referência é simples: uma hora exatamente no FTP vale 100 TSS.

Por isso dá para comparar treinos diferentes na mesma régua. Um pedal tranquilo de 2 horas (IF 0,70) dá cerca de 98 TSS. Uma sessão forte de 30 minutos (IF 0,95) dá cerca de 45 TSS. A bike de um IRONMAN pode acumular 250 a 320 TSS; saber disso ajuda a dimensionar o esforço e a entender o quanto sobra para a corrida.

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    Planejar a semana. Somar o TSS mostra se a carga está leve, adequada ou excessiva.
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    Dimensionar a prova. Estimar o TSS da bike ajuda a planejar o ritmo e a gestão de esforço.
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    Acompanhar a forma. O TSS é a base dos gráficos de condicionamento e fadiga do TrainingPeaks.

Você não calcula nada à mão: o computador e o TrainingPeaks fazem isso. Mas entenda a ideia: TSS é o preço que cada treino cobra do seu corpo.

VI: Variability Index

O que é. O quão constante, ou picotado, foi o seu pedal. É a NP dividida pela potência média. VI de 1,0 significa esforço perfeitamente liso; quanto mais alto, mais oscilações.

Por que é crítico no triathlon. Pedalar irregular custa mais caro que pedalar liso, mesmo com a mesma média de watts. O esforço variável gera mais lactato e queima mais glicogênio, e você precisa desse glicogênio para correr. Um VI alto na bike é um dos maiores previsores de uma corrida ruim.

VI da bikeLeitura
1,00–1,05Excelente. O alvo para a bike do IRONMAN e do 70.3: pedal liso, energia preservada para a corrida.
1,05–1,08Aceitável em percursos ondulados ou com vento.
> 1,08Sinal de alerta. Geralmente é pacing ruim: surtos desnecessários que vão custar na corrida.
O número existe para te dar consciência,
não para te empurrar ao limite.
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