CMTeam
Carla Moreno de cabeça baixa, com as mãos nas pernas, na pista de atletismo
Artigo Mind

Post-Marathon Blues

Por que o ânimo cai dias depois da prova dos sonhos, o que a ciência diz sobre isso e como atravessar esse período sem brigar com o seu corpo.

Por San Palma, head coach6 de novembro de 20265 min de leitura

Você treinou por meses. Acordou cedo quando todo mundo dormia, abriu mão de jantares, viagens e fins de semana. Cruzou a linha e sentiu uma das melhores sensações que o esporte pode dar. E alguns dias depois, sem avisar, o ânimo caiu. Não era cansaço físico. Era outra coisa, mais pesada e mais silenciosa.

Carla Moreno cruzando a chegada com a seleção brasileira
A euforia da chegada. É ela que torna o vazio dos dias seguintes tão confuso.

Esse fenômeno tem nome: Post-Marathon Blues. E, apesar do nome, não é exclusivo da maratona. Ele aparece depois de qualquer grande ciclo de endurance (Ironman, 70.3, ultra trail, travessias longas), sempre que o objetivo foi grande o suficiente para organizar semanas ou meses da sua vida, e então termina.

O que acontece no corpo

Durante a preparação, o seu sistema viveu em alta mobilização. Dopamina sustentando a motivação e o prazer do progresso, endorfinas tornando o esforço suportável, cortisol e adrenalina organizando a resposta ao estresse do treino. E, junto com a química, uma rotina estruturada, um propósito claro e uma direção definida.

Quando a prova termina, tudo isso cai de uma vez. A neurologista Beth McQuiston descreve o momento como “puxar o plugue dos neurotransmissores”: o cérebro, acostumado a um padrão de estímulo, perde de repente as fontes que sustentavam esse equilíbrio.

Um estudo de 2024 da Universidade de Linnaeus, na Suécia, publicado na BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, entrevistou atletas amadores de endurance e descreveu exatamente esse paradoxo: o orgulho de ter chegado, entrelaçado com vazio e falta de direção. A intensidade dependia de dois fatores: o tempo dedicado ao ciclo e a capacidade de criar um novo objetivo para depois.

Não é fraqueza. Não é ingratidão.
É o sistema nervoso reencontrando o equilíbrio depois de meses de propósito intenso.

Não é sobre a prova.
É sobre o que ela representava.

Durante o ciclo, a vida inteira se reorganizou em volta de um porquê. O trabalho se adaptou, a família cobriu ausências, os amigos passaram a ver você menos. Havia um acordo silencioso com todo o seu mundo: agora não, estou construindo algo.

Quando o objetivo termina, esse acordo se desfaz, e com ele vai a estrutura que organizava tudo. É por isso que a vida “normal” pode parecer insuficiente. Não porque ela seja, mas porque o cérebro acabou de sair de meses de direção clara.

Nas provas longas isso pesa mais. Uma pesquisa de doutorado com triatletas de 70.3 e Ironman apontou o equilíbrio entre treino, trabalho e família no pico da preparação como o principal preditor dos blues: quanto pior esse equilíbrio, mais fundo o vazio depois da chegada.

O que é normal sentir

Irritabilidade sem motivo aparente, falta de vontade de voltar a treinar, sensação de vazio, sono pior, um cansaço maior do que o esforço físico explica, apetite desregulado. Na maioria dos atletas, isso passa em cerca de duas semanas. Depois de ciclos muito longos, pode levar mais tempo.

Quando conversar com alguém

Os blues não são um diagnóstico clínico. Mas, se a tristeza se aprofundar, durar semanas sem melhorar ou começar a atrapalhar o trabalho e a vida em casa, fale com o seu treinador e procure um profissional de saúde. Pedir ajuda também faz parte do processo.

Como atravessar sem brigar com o corpo

  1. 1
    Aceite. O sistema está se reajustando. Não é hora de cobrança nem de comparação. Forçar a volta antes da hora só estica o período.
  2. 2
    Durma de verdade. O sono é o principal sinal para o corpo de que ele pode reconstruir.
  3. 3
    Coma bem, sem extremos. Nem restrição exagerada, nem compensação com excessos. Regularidade e qualidade.
  4. 4
    Movimento leve, sim. Treino pesado, não. Caminhada, nado solto, pedal tranquilo. Vinte a trinta minutos leves já ajudam o humor.
  5. 5
    Reconecte. Quem cobriu as suas ausências merece o seu tempo agora. Essa reconexão alimenta o cérebro de um jeito que o treino não alcança.
  6. 6
    Crie um microobjetivo. Pequeno e sem pressa: retomar a técnica, refazer a base, explorar um percurso novo. O cérebro precisa de uma direção.

A prevenção começa antes da chegada

Atletas que cruzam a linha já com um próximo passo em mente sentem blues bem mais leves do que quem chega sem saber o que vem depois. Não é marcar a próxima grande prova na semana seguinte. É não deixar o espaço completamente vazio. Vale levar essa conversa para o seu treinador ainda na semana da prova.

Se você sentiu isso, é porque viveu algo grande.
A linha de chegada não é o fim.
É a pausa entre um capítulo e outro.

Radar CMTeam

Gostou? O próximo chega no seu e-mail.

O que vale a pena ler sobre treino, duas vezes por mês. Um artigo do San, um estudo explicado em linguagem de atleta e uma leitura leve para o fim de semana. Sem spam, sem promoção.

Primeira edição em janeiro. Você sai quando quiser. Privacidade

Treine com a CMTeam

Aqui, cada treino tem motivo.

Planilha individual feita pelo San, toda semana, e a Carla Moreno no seu WhatsApp. Em Miami ou online, onde você estiver.

Respondemos em até 24h, de segunda a sexta.
Sempre uma pessoa, nunca um robô.